terça-feira, 10 de abril de 2012

Cartas Perto do Coração - mais que cartas, a alma de Fernando Sabino e Clarice Lispector

Caros amigos e companheiros de jornada




Estava arrumando o acervo quando encontrei entre as prateleiras um livro que há muito desperta uma paixão imensa. Trata-se do maravilhoso Cartas Perto do Coração – uma coletânea de cartas escritas entre Fernando Sabino e Clarice Lispector.

Que Clarice Lispector é paixão antiga, desde a minha dourada adolescência, é sabido por muitos. Mas Fernando, talvez por resistência irracional, talvez por preguiça de leitora assumida, só despertou a minha paixão agora, através destas cartas. Quando vi este livro, foi como se estivesse encontrado Clarice rediviva na minha frente. Instantaneamente uma onda de alegria e contentamento me tomou. Abracei, cheirei e beijei o livro. Encantei-me e imediatamente abri uma carta aleatoriamente.

Estava lá Fernando falando para Clarice, indagando sobre as suas tristezas (as dela), questionando sobre a ausência de sorriso:

“Clarice, antes de tudo, como vai você? Ou antes ainda, como fica você? Porque você por dentro não vai bem não, Clarice Lispector, você por três vezes já se esqueceu de sorrir quando era preciso, e se alguma coisa acontecer bem engraçada, bem engraçadinha, por exemplo a menininha de amarelo sair correndo atrás do passarinho e não pegar, você vendo é capaz de chorar.” ( Old, Greenwich, 03/08/1946)

Imediatamente me encantei com Fernando, com tamanha sensibilidade. Voltei algumas páginas para ver do que se tratava. De qual tristeza Fernando falava? Que tipo de ausência Clarice estava vivendo? E encontrei:

“Tenho lido a Imitação de Cristo, que tem me purificado às vezes. Mas não sei aprender ainda a desistir e tenho mesmo medo de desistir e me entregar porque não sei o que virá daí. Até agora eu mesma me ergui sempre mas é um esforço muito grande e naturalmente estou bem cansada. (Carta de Berna, 27/07/1946)

Mais cartas e mais revelações. Os comentários a respeito de diversas obras das décadas de 40 e 50, contos e escritores, como pode ser visto no trecho a seguir:

"Fernando, estou lendo o livro de Guimarães Rosa, e não posso deixar de escrever a você. Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai o poder inventivo dele, ultrapassa o limite imaginável. Estou até tola. A linguagem dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida pela linguagem íntima da gente - e nesse sentido ele mais que inventou, ele descobriu, ou melhor, inventou a verdade." (11/12/1956)

Muito mais que isso, que a Suíça, a cidade de Nova York, Ipanema. São os lugares da alma de Fernando e Clarice. As incertezas, a separação, o nascimento dos filhos, os amores, a solidão, a reforma da casa, a mudança de endereço e de cardápio vão se configurando num encontro entre o ser e o estar. Assim, mais que revelar o estado das coisas e o espírito das pessoas, Cartas Perto do Coração aproxima o leitor de retalhos da vida dos escritores, possibilitando um encontro de si mesmo, a cada carta.

O aprendizado vai além das ações, perpassa as reflexões, que de tão simples são tão grandiosas:

“Viver devagar é que é bom, e entreviver-se, amando, desejando e sofrendo, avançando e recuando, tirando das coisas ao redor uma íntima compensação, recriando em si mesmo a reserva dos outros e vivendo em uníssono. Isso é que é viver, e viver afinal é questão de paciência.” (Carta de Fernando para Clarice, em 06/06/1946)

“E o tempo se conta mesmo em anos. Deus me livre se fosse em dias. É como crescer ou envelhecer que só se vê em anos. Como é que se pode ver a curva tão larga das coisas se se está tão próximo como é próximo o dia? Pois se às vezes a palavra que falta para completar um pensamento pode levar meia vida para aparecer. Com máximas como esta é que Ataulfo de Paiva deve ter entrado na Academia.” (De Clarice para Fernando, em 30/08/1953)

E após estas cartas, então reflito sobre o tempo e a existência, sobre a relação espaço-atitude que tanto inquieta-nos; sobre a velocidade das informações e suas efemeridades. Sobre o eterno que se conta em segundos.

No fim do livro, uma parte não menos importante: Díálogos possíveis com Clarice Lispector. Mais aprendizado e profundidade, mais consciência do ser:
"_ Como é que você resumiria o conteúdo da palavra amor?
_ Amor é dádiva, renúncia de si mesmo na aceitação do outro. Amar o próximo como a si mesmo e a Deus sobre todas as coisas." (página 213)

Caros, leitura feita, leitura recomendada. Vamos nos encantar e nos descobrir na leitura destas cartas que mais de coração, falam de alma, da vida e do viver.

Saudações Literárias!

2 comentários:

Vitor Marques disse...

Querida Nal, lindas palavras; uma verdadeira declaração de amor a arte representada tão grandiosamente por este dois literatos de marca maior. Realmente, sua paixão por Clarice já é notória, entretanto, sei também (ou penso que) sua paixão pela Literatura e, seja qual for sua vertente explanador, é ainda maior. Um cheiro e obrigado por este momento de contemplação. Retornarei!!

Ag Almeida disse...

Lindo lindo Nau!
Encantei-me com tuas palavras....
A Clarice... O Sabino...
Estava lendo o "Encontro Marcado"...
Até onde li gostei...
Mas acabei por não terminar de ler (faço isso às vezes - um horror, mas enfim).
Obrigada por este momento de inspiração e deleite...
"viver afinal é questão de paciência"...
Belo!
E assim o é...
Caso contrário desistiríamos....
Escrevo umas loucuras às vezes...
Enfim...
O blog é este:
http://guinnealmeida.blogspot.com.br/
Beijooo
Paz, boas energias, harmonia, amor, felicidade, positividades, bem!!!!!!!!!!!!!!
Beijoo

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