Coco de Pagu
Raul Bopp
Pagu tem os olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-côco quando passa.
Coração pega a bater.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Passa e me puxa com os olhos
provocantissimamente.
Mexe-mexe bamboleia
pra mexer com toda a gente.
Eli Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Toda a gente fica olhando
o seu corpinho de vai-e-vem
umbilical e molengo
de não-sei-o-que-é-que-tem.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Quero porque te quero
Nas formas do bem-querer.
Querzinho de ficar junto
que é bom de fazer doer.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Fonte:
http://www.revista.agulha.nom.br/rb.html#coco
Pagu... A Musa ex-interiorana
José Silveira
izer que a obra dela é apócrifa,
Certamente, quem disser um louco é,
Coragem em um ser, maior não havia,
Ainda mais, no corpo tenro de uma mulher.
Musa brasileira, escandalosa e libertária,
Fenômeno, livre, sem atavismos, e independente,
A história está aí, e bem escrita,
Dos seus feitos, em variadas vertentes.
Uma modernista pro seu tempo,
Cuja voz doce ecoou forte, na rua,
Despojada, vestindo-se quase que nua,
Outros fatos a fez romper com a família.
Pós-menina e já era de vanguarda,
Pagú, pintou, fumou e abusou da lua,
Nada tinha de mulher interiorana,
Seus manifestos tinha-os sob sua guarda.
Por amor casou-se, e de igual amor gerou,
Pariu primeiro Rudá, qual o mito “o deus do amor”,
O mesmo amor com que o amou, ela amava,
A própria vida, e a liberdade do seu povo.
Engajou-se ao movimento antropofágico, de comer,
“no caráter metafórico da palavra”, não gente,
De não negar, mas não imitar culturas externas,
Dos ameríndios, euros e dos afros descendentes.
Mas, seu “Modus vivendi” incomodava,
Muito mais suas palavras às estruturas,
Sua escrita criticou todo o seu tempo,
Consuetudinário, de prisões e de torturas.
Aos cinqüenta e dois ano ela partiu,
Para viajem definitiva e derradeira
Ficou o mito, nunca será esquecida,
Pagú, a grande musa brasileira
Por cima do abismo estende-se minh'alma tensa como um cabo onde me equilibro, malabarista de palavras. (Maiakóvski)
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Pagu - Parte I
Caros Amigos, não poderia deixar de encerrar o mês de junho lembrando a nossa Pagu, a grande escritora, jornalista e militante política Patrícia Galvão (09/06/1910 - 12/121962).
Tantos artistas e escritores se inspiraram na história desta grande mulher para compor seus poemas, versos e cansões. Tantos outros anônimos sonhadores e mulheres lutadoras se espelharam na história de amor, luta, resistência, dor, fragilidade e coragem da nossa eterna Pagu.
Vejamos a seguir, algumas fortes e densas palavras da grande Patrícia Galvão, para que possamos reunir forças e seguir a nossa caminhada de Sonho e Resistência:
" Dentro da lei...nha..."
"O apito da chaminé gigante, libertando uma humanidade inteira que se escoa para as ruas da miséria."
9 de junho. Nasce Patrícia Rehder Galvão, filha de Thiers Galvão de França e Adélia Rehder Galvão, em São João da Boa Vista (SP). O registro de nascimento é de 14 de junho, data às vezes erroneamente citada como a do nascimento.
1925
Primeiras colaborações no Brás Jornal; primeiro pseudônimo: Patsy.
Frequenta o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde é aluna de Mário de Andrade e de Fernando Mendes de Almeida.
1927
Perde o Concurso Fotogênico de Beleza Feminina e Varonil, da Fox. Quem ganha é Lia Torá, o vencedor masculino é Olympio Guilherme, que parte para Hollywood. Antes, tivera um namoro com Patrícia.
1928
Vai às reuniões do casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Raul Bopp é quem a teria apresentado aos dois.
Bopp reivindica a criação do apelido Pagu (dado por achar que seu nome fosse Patrícia Goulart).
Recebe o diploma de professora na Escola Normal de São Paulo.
1929
Primeira colaboração na Revista da Antropofagia (um desenho, no número 2 da 2a “dentição”).
No número 8, publica novo desenho, assinado Pagu.
Produz o Álbum de Pagu – Nascimento Vida Paixão e Morte, composto de textos e desenhos humorísticos.
Começa o diário (com Oswald de Andrade), Romance da época anarquista ou Livro das horas de Pagu que são minhas. A data é 24 de maio, que Augusto de Campos afirma “poder ser o dia do início do romance entre os dois”.
Em 5 de junho, declama poemas modernistas numa festa beneficente, vestida por Tarsila.
Casa-se a 28 de setembro com o pintor Waldemar Belisário; o casamento é pró-forma. Após a cerimônia civil, Oswald recebe a noiva de Belisário, no alto da serra de Santos e, enquanto o pintor volta a São Paulo, Oswald e seu filho Nonê se juntam a Patrícia, rumo à praia. O casamento com Belisário seria anulado em fevereiro de 1930.
Inicia o Caderno de Croquis, com paisagens e cenários de cidades brasileiras.
1930
Oswald de Andrade e Patrícia Galvão fazem um casamento peculiar, no cemitério, diante do jazigo da família dele, em São Paulo, a 5 de janeiro.
Nasce Rudá de Andrade, filho de Oswald e Patrícia, a 25 de setembro.
Viaja em dezembro para Buenos Aires. Ali não consegue se encontrar com Luís Carlos Prestes, a quem conheceria depois, em Montevidéu, mas trava contatos com Jorge Luís Borges, Eduardo Mallea, Victoria Ocampo e Norah Borges.
1931
Entra no Partido Comunista Brasileiro.
Publica a seção A Mulher do Povo no jornal O Homem do Povo, que editou juntamente com Oswald. O jornal seria proibido pela polícia após oito números polêmicos que valeram o empastelamento do seu escritório por estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. No jornal também cria e desenha uma história em quadrinhos.
É presa, a 23 de agosto, em Santos (SP), ao participar de um comício em homenagem a Sacco e Vanzetti, quando um estivador negro morre em seus braços, fuzilado pela polícia getulista. É levada para o cárcere na Praça dos Andradas. A cadeia é hoje um centro cultural que leva o seu nome.
1932
Vai morar numa vila operária, no Rio de Janeiro, cidade em que trabalha como proletária em vários ofícios, entre os quais lanterninha de cinema e tecelã.
Debilitada e doente, é socorrida por Oswald.
Escreve o romance proletário Parque Industrial e peça de teatro nele baseada.
1933
Publica o romance Parque industrial, em janeiro. O livro, primeiro romance proletário brasileiro, tem edição financiada por Oswald e sai assinado por Mara Lobo, pseudônimo exigido pelo Partido Comunista.
Em agosto, começa viagem pelo mundo, enviando reportagens para jornais como o Diário de Notícias e o Correio da Manhã cariocas e o Diário da Noite paulistano. O itinerário: Rio, Belém, Califórnia, Japão, China, Rússia, Polônia, Alemanha, França. Encontros: Sigmund Freud num navio; George Raft, Raul Roulien e Miriam Hopkins, em Hollywood; Raul Bopp, em Cobe, no Japão.
1934
Fica amiga do último imperador, Pu-Yi, com quem anda de bicicleta pelos corredores do palácio da corte manchu. Consegue dele, na Mandchuria, as sementes de soja que iniciam a cultura do cereal no Brasil.
Após visitar a Rússia, mesmo decepcionada com o regime comunista, trabalha em Paris no jornal L’Avant-Garde e como tradutora de filmes. Com o pseudônimo de Léonie, entra para o PC francês. É ferida em manifestações de rua e presa três vezes. Encontros: a vanguarda francesa – Louis Aragon, André Breton, Paul Éluard, René Crevel, em casa da amiga e cantora brasileira Elsie Huston, casada com o poeta Benjamin Péret.
1935
A ponto de ser deportada para a Alemanha nazista, é salva pelo embaixador brasileiro Souza Dantas, que consegue recambiá-la para o Brasil. De volta, trabalha no jornal A Platéia, em São Paulo.
Separa-se de Oswald de Andrade.
1936
É presa por causa do levante comunista. Absolvida em São Paulo, é condenada a dois anos de prisão no Rio.
1937
Antes de cumprir toda a pena, foge do hospital Santa Cruz. Aparece nos jornais como uma mulher perigosa e inimiga pública do governo de Getúlio Vargas.
1938
Nova prisão. O Tribunal Nacional de Segurança do Estado Novo getulista a condena a mais dois anos de prisão.
1939
Escreve, na prisão, Microcosmo – Pagu e o homem subterrâneo. Correspondência, textos poéticos complementares (os únicos preservados) de romance que enterrou em terreno baldio, antes de ser detida, em São Paulo. No local foi construído um edifício, antes que pudesse desenterrar o romance.
1940
Começa a redigir, na cadeia, carta autobiográfica dirigida a Geraldo Ferraz, depois editada no livro Paixão Pagu.
É libertada e se casa com Geraldo Ferraz.
1941
Nasce Geraldo Galvão Ferraz, filho do casal, a 18 de junho.
1942
Em São Paulo, publica crônicas em A Noite, sob o pseudônimo Ariel.
1943
Trabalha nos jornais cariocas A Manhã e O Jornal.
1944
De junho a dezembro, escreve contos policiais para a revista Detective.
1945
Publica o romance A Famosa Revista, escrito com Geraldo Ferraz. No Rio e em São Paulo, trabalha na agência de notícias France-Presse, onde fica 11 anos.
Participa da redação do jornal A Vanguarda Socialista, fundado por Mário Pedrosa e secretariado por Geraldo Ferraz. Ali também publica crônicas políticas e literárias.
1946
Faz com Geraldo Ferraz o Suplemento Literário do jornal Diário de São Paulo.
Escreve crônicas da vida cultural na coluna Cor Local e produz a Antologia da Literatura Estrangeira, onde traduz pela primeira vez no Brasil grandes nomes da poesia e da prosa mundial.
1948
Importante participação no Congresso de Poesia, em São Paulo.
1949
Tentativa de suicídio. Colabora no Jornal de São Paulo.
1950
É candidata a deputada estadual em São Paulo, pelo Partido Socialista Brasileiro.
Publica o panfleto Verdade e Liberdade. Trabalha no jornal Fanfulla.
1952
Frequenta a Escola de Arte Dramática.
1954
Escreve a peça Fuga e Variações, parte do exercício escolar.
Traduz A Cantora Careca, de Ionesco.
Morando em São Vicente e Santos, trabalha no jornal A Tribuna.
1956
Começa uma das primeiras colunas de tevê no país com o pseudônimo Gim, em A Tribuna.
1958
Dirige, com Paulo Lara, Fando e Lis, de Fernando Arrabal.
Coordena o I Festival de Teatro Amador de Santos e Litoral. Incentivando o teatro de vanguarda.
1960
Encontros com Jean-Paul Sartre e Eugéne Ionesco, em São Paulo e Rio.
Traduz e dirige A Filha de Rappaccini, de Octavio Paz, em Santos.
1961
Traduz a peça O Túnel, de Par Lagerkvist.
1962
Em setembro, publica seu último texto, em A Tribuna, o poema Nothing.
Vai a Paris para uma operação. Tentativa de suicídio, após o fracasso da intervenção.
Morre em Santos, a 12 de dezembro.
Tantos artistas e escritores se inspiraram na história desta grande mulher para compor seus poemas, versos e cansões. Tantos outros anônimos sonhadores e mulheres lutadoras se espelharam na história de amor, luta, resistência, dor, fragilidade e coragem da nossa eterna Pagu.
Vejamos a seguir, algumas fortes e densas palavras da grande Patrícia Galvão, para que possamos reunir forças e seguir a nossa caminhada de Sonho e Resistência:
“Quando eu morrer não quero que chorem a minha morte/ Deixarei meu corpo pra vocês...”
"Se eu ainda tivesse unhas, enterraria meus dedos nesse espaço em branco que ainda resta"
"O apito da chaminé gigante, libertando uma humanidade inteira que se escoa para as ruas da miséria."
"De um país tão rico e importante, fizeram um país de sobremesas. Açúcar, café, bananas.
Que pelo menos nós sobrem as bananas!"
Que pelo menos nós sobrem as bananas!"
"Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre"
“Nada, nada, nada
Nada mais do que nada
(...) Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
(...) Abri meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada”
"É uma necessidade conversar com os poetas. E se os poetas morrerem, provocarei os mortos, as flores do mal que estão na minha estante."
" Quero ir bem alto... Bem alto! Numa sensação de saborosa superioridade... É que do outro lado do muro, tem uma coisa que eu quero espiar.. "
Cronologia
19109 de junho. Nasce Patrícia Rehder Galvão, filha de Thiers Galvão de França e Adélia Rehder Galvão, em São João da Boa Vista (SP). O registro de nascimento é de 14 de junho, data às vezes erroneamente citada como a do nascimento.
1925
Primeiras colaborações no Brás Jornal; primeiro pseudônimo: Patsy.
Frequenta o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde é aluna de Mário de Andrade e de Fernando Mendes de Almeida.
1927
Perde o Concurso Fotogênico de Beleza Feminina e Varonil, da Fox. Quem ganha é Lia Torá, o vencedor masculino é Olympio Guilherme, que parte para Hollywood. Antes, tivera um namoro com Patrícia.
1928
Vai às reuniões do casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Raul Bopp é quem a teria apresentado aos dois.
Bopp reivindica a criação do apelido Pagu (dado por achar que seu nome fosse Patrícia Goulart).
Recebe o diploma de professora na Escola Normal de São Paulo.
1929
Primeira colaboração na Revista da Antropofagia (um desenho, no número 2 da 2a “dentição”).
No número 8, publica novo desenho, assinado Pagu.
Produz o Álbum de Pagu – Nascimento Vida Paixão e Morte, composto de textos e desenhos humorísticos.
Começa o diário (com Oswald de Andrade), Romance da época anarquista ou Livro das horas de Pagu que são minhas. A data é 24 de maio, que Augusto de Campos afirma “poder ser o dia do início do romance entre os dois”.
Em 5 de junho, declama poemas modernistas numa festa beneficente, vestida por Tarsila.
Casa-se a 28 de setembro com o pintor Waldemar Belisário; o casamento é pró-forma. Após a cerimônia civil, Oswald recebe a noiva de Belisário, no alto da serra de Santos e, enquanto o pintor volta a São Paulo, Oswald e seu filho Nonê se juntam a Patrícia, rumo à praia. O casamento com Belisário seria anulado em fevereiro de 1930.
Inicia o Caderno de Croquis, com paisagens e cenários de cidades brasileiras.
1930
Oswald de Andrade e Patrícia Galvão fazem um casamento peculiar, no cemitério, diante do jazigo da família dele, em São Paulo, a 5 de janeiro.
Nasce Rudá de Andrade, filho de Oswald e Patrícia, a 25 de setembro.
Viaja em dezembro para Buenos Aires. Ali não consegue se encontrar com Luís Carlos Prestes, a quem conheceria depois, em Montevidéu, mas trava contatos com Jorge Luís Borges, Eduardo Mallea, Victoria Ocampo e Norah Borges.
1931
Entra no Partido Comunista Brasileiro.
Publica a seção A Mulher do Povo no jornal O Homem do Povo, que editou juntamente com Oswald. O jornal seria proibido pela polícia após oito números polêmicos que valeram o empastelamento do seu escritório por estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. No jornal também cria e desenha uma história em quadrinhos.
É presa, a 23 de agosto, em Santos (SP), ao participar de um comício em homenagem a Sacco e Vanzetti, quando um estivador negro morre em seus braços, fuzilado pela polícia getulista. É levada para o cárcere na Praça dos Andradas. A cadeia é hoje um centro cultural que leva o seu nome.
1932
Vai morar numa vila operária, no Rio de Janeiro, cidade em que trabalha como proletária em vários ofícios, entre os quais lanterninha de cinema e tecelã.
Debilitada e doente, é socorrida por Oswald.
Escreve o romance proletário Parque Industrial e peça de teatro nele baseada.
1933
Publica o romance Parque industrial, em janeiro. O livro, primeiro romance proletário brasileiro, tem edição financiada por Oswald e sai assinado por Mara Lobo, pseudônimo exigido pelo Partido Comunista.
Em agosto, começa viagem pelo mundo, enviando reportagens para jornais como o Diário de Notícias e o Correio da Manhã cariocas e o Diário da Noite paulistano. O itinerário: Rio, Belém, Califórnia, Japão, China, Rússia, Polônia, Alemanha, França. Encontros: Sigmund Freud num navio; George Raft, Raul Roulien e Miriam Hopkins, em Hollywood; Raul Bopp, em Cobe, no Japão.
1934
Fica amiga do último imperador, Pu-Yi, com quem anda de bicicleta pelos corredores do palácio da corte manchu. Consegue dele, na Mandchuria, as sementes de soja que iniciam a cultura do cereal no Brasil.
Após visitar a Rússia, mesmo decepcionada com o regime comunista, trabalha em Paris no jornal L’Avant-Garde e como tradutora de filmes. Com o pseudônimo de Léonie, entra para o PC francês. É ferida em manifestações de rua e presa três vezes. Encontros: a vanguarda francesa – Louis Aragon, André Breton, Paul Éluard, René Crevel, em casa da amiga e cantora brasileira Elsie Huston, casada com o poeta Benjamin Péret.
1935
A ponto de ser deportada para a Alemanha nazista, é salva pelo embaixador brasileiro Souza Dantas, que consegue recambiá-la para o Brasil. De volta, trabalha no jornal A Platéia, em São Paulo.
Separa-se de Oswald de Andrade.
1936
É presa por causa do levante comunista. Absolvida em São Paulo, é condenada a dois anos de prisão no Rio.
1937
Antes de cumprir toda a pena, foge do hospital Santa Cruz. Aparece nos jornais como uma mulher perigosa e inimiga pública do governo de Getúlio Vargas.
1938
Nova prisão. O Tribunal Nacional de Segurança do Estado Novo getulista a condena a mais dois anos de prisão.
1939
Escreve, na prisão, Microcosmo – Pagu e o homem subterrâneo. Correspondência, textos poéticos complementares (os únicos preservados) de romance que enterrou em terreno baldio, antes de ser detida, em São Paulo. No local foi construído um edifício, antes que pudesse desenterrar o romance.
1940
Começa a redigir, na cadeia, carta autobiográfica dirigida a Geraldo Ferraz, depois editada no livro Paixão Pagu.
É libertada e se casa com Geraldo Ferraz.
1941
Nasce Geraldo Galvão Ferraz, filho do casal, a 18 de junho.
1942
Em São Paulo, publica crônicas em A Noite, sob o pseudônimo Ariel.
1943
Trabalha nos jornais cariocas A Manhã e O Jornal.
1944
De junho a dezembro, escreve contos policiais para a revista Detective.
1945
Publica o romance A Famosa Revista, escrito com Geraldo Ferraz. No Rio e em São Paulo, trabalha na agência de notícias France-Presse, onde fica 11 anos.
Participa da redação do jornal A Vanguarda Socialista, fundado por Mário Pedrosa e secretariado por Geraldo Ferraz. Ali também publica crônicas políticas e literárias.
1946
Faz com Geraldo Ferraz o Suplemento Literário do jornal Diário de São Paulo.
Escreve crônicas da vida cultural na coluna Cor Local e produz a Antologia da Literatura Estrangeira, onde traduz pela primeira vez no Brasil grandes nomes da poesia e da prosa mundial.
1948
Importante participação no Congresso de Poesia, em São Paulo.
1949
Tentativa de suicídio. Colabora no Jornal de São Paulo.
1950
É candidata a deputada estadual em São Paulo, pelo Partido Socialista Brasileiro.
Publica o panfleto Verdade e Liberdade. Trabalha no jornal Fanfulla.
1952
Frequenta a Escola de Arte Dramática.
1954
Escreve a peça Fuga e Variações, parte do exercício escolar.
Traduz A Cantora Careca, de Ionesco.
Morando em São Vicente e Santos, trabalha no jornal A Tribuna.
1956
Começa uma das primeiras colunas de tevê no país com o pseudônimo Gim, em A Tribuna.
1958
Dirige, com Paulo Lara, Fando e Lis, de Fernando Arrabal.
Coordena o I Festival de Teatro Amador de Santos e Litoral. Incentivando o teatro de vanguarda.
1960
Encontros com Jean-Paul Sartre e Eugéne Ionesco, em São Paulo e Rio.
Traduz e dirige A Filha de Rappaccini, de Octavio Paz, em Santos.
1961
Traduz a peça O Túnel, de Par Lagerkvist.
1962
Em setembro, publica seu último texto, em A Tribuna, o poema Nothing.
Vai a Paris para uma operação. Tentativa de suicídio, após o fracasso da intervenção.
Morre em Santos, a 12 de dezembro.
Fontes e sugestões:
Mergulhem nesta história e construam suas narrativas únicas, infinitamente especiais!
Saudações Literárias
sábado, 5 de junho de 2010
Baixar a obra As Vítimas Algozes
Para baixar a obra, clik no link a seguir
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2134
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2134
As Vítimas Algozes
As Vítimas-Algozes - Quadros da escravidão, de Joaquim Manuel de MacedoO livro As Vítimas-Algozes, de Joaquim Manuel de Macedo, foi escrito na segunda metade do século XIX, em 1869, 19 anos antes da Abolição da Escravidão. O livro pertence ao Romantismo, que foi uma escola literária de grande importância para a história de nossa literatura.
A obra não agradou o público oitocentista e recebeu várias críticas publicadas na imprensa, sendo considerado por Ubiratan Machado como “o livro mais atacado pela crítica durante o período romântico”.
As Vítimas-Algozes é, ao seu modo, um romance abolicionista. Não daquele abolicionismo que encontramos nas obras dos poetas acima relacionados. Como explica Macedo, na nota “Aos Nossos Leitores”, não lhe interessou, nas “educativas” e “moralizantes” histórias que entregava aos consumidores de sua vasta obra, pintar “o quadro do mal que o senhor, ainda sem querer, faz ao escravo”, mas, sim, o “quadro do mal que o escravo faz de assento propósito ou às vezes irrefletidamente ao senhor”. Dito de maneira mais direta, o romance antiescravista de Macedo quer convencer os seus leitores de que é preciso libertar os escravos não por razões humanitárias, mas porque os cativos, sempre imiscuídos nas casas-grandes e sobrados, introduzem a corrupção física e moral no seio das famílias brancas.
Na obra o autor expressa a idéia de que a escravidão faz vítimas algozes e deve ser gradualmente extinta, sem prejuízo para os grandes proprietários de terra. Num tom conservador e usando personagens como a escrava Lucinda, o autor defende a tese de que a escravidão cria vítimas oprimidas socialmente, mas com uma perversão lógica, imoral e com influência corruptora.
O tratamento entre patrão e escravo nos últimos anos do cativeiro, uma intimidade que beira o sado-masoquismo foi retratada por Joaquim Manuel de Macedo neste livro. Ele denuncia que, se o escravo é inegavelmente vítima de um regime desumano, a sua presença igualmente desagrega a sociedade branca no que ela teria de mais recomendável.
A obra é um retrato perfeito do Brasil pós-abolicionista.
De acordo com o contexto histórico da época, Joaquim Manuel alertava ao leitor burguês de que o melhor a fazer era gradualmente abolir a escravidão. Depois da abolição, ele explica que os negros foram 'largados' nas favelas, como acontece no início do filme "Cidade de Deus".
Desfilam pelas páginas das três histórias que compõem o livro: o negro feiticeiro, o “moleque” traiçoeiro, a escrava assassina, as negras que se amasiam com seus patrões, a mucama lasciva, os negros desocupados dos botequins, os mulatos espertalhões, enfim, um sem número de tipos que demonstram ao leitor o quão comprometedor da estabilidade social era a presença do escravo na intimidade doméstica.
O objetivo político das três histórias que compõem o livro está claro desde a nota inicial aos leitores. Professando narrar apenas “histórias verdadeiras”, queria firmar, na “consciência” do público, “as verdades que vamos dizer”. Obra de convencimento, portanto, As vítimas-algozes era tentativa de obrigar os leitores a “encarar de face, a medir, a sondar em toda sua profundeza um mal enorme que afeia, infecciona, avilta, deturpa e corrói a nossa sociedade, e a que nossa sociedade ainda se apega semelhante a desgraçada mulher que, tomando o hábito da prostituição, a ela se abandona com indecente desvario”. A retórica é semelhante àquela dos conselheiros de Estado em 1867, e Macedo recita as estrofes do isolamento internacional do país, do exemplo da guerra civil americana, do processo de emancipação em Cuba, e do caráter “implacável” da reforma, “exigência (...) da civilização e do século”. Afirma que a escravidão é “cancro social”, que se não “estirpa (...) sem dor”; mas o “adiamento teimoso do problema” agravaria o mal, pois o país poderia ter de enfrentar a “emancipação imediata e absoluta dos escravos”, colocando “em convulsão o país, em desordem descomunal e em soçobro a riqueza particular e pública, em miséria o povo, em bancarrota o Estado”.
O cenário apocalíptico que Macedo antevê como decorrência de uma possível emancipação imediata dos escravos revela já de início o que seria esta obra, a forma como faz desfilar uma galeria medonha de escravos astuciosos, trapaceiros e devassos, sempre dispostos a ludibriar os senhores e ameaçar os valores e o bem-estar da família senhorial. Preocupado em não deixar nada por explicar, Macedo esclarece que havia dois caminhos a seguir para mostrar aos leitores “a reprovação profunda que deve inspirar a escravidão”. O primeiro consistiria em narrar as misérias e os sofrimentos dos escravos, suas vidas “de amarguras sem termo”, o “inferno perpétuo no mundo negro da escravidão”. Seria o quadro do mal que o senhor faz ao escravo, “ainda sem querer”. O segundo caminho, aquele escolhido por Macedo, mostraria “os vícios ignóbeis, a perversão, os ódios, os ferozes instintos dos escravos, inimigo natural e rancoroso do seu senhor”. Seria o quadro do mal que o escravo faz ao senhor, “de assentado propósito ou às vezes involuntária e irrefletidamente”.
1ª narrativa - "Simeão, o crioulo"
O protagonista, Simeão, perdera a mãe, que fora ama-de-leite da sinhazinha, aos dois anos, tendo sido criado pelos patrões. Até os oito anos de idade Simeão teve prato à mesa e leito no quarto de seus senhores, e não teve consciência de sua condição de escravo.
Tinha algumas regalias em função disso, mas não deixava de ter o estatuto e o tratamento de escravo, fator que se agravava e se tornava mais claro conforme ele se fazia adulto.
Depois dos oito anos apenas foi privado da mesa e do quarto em comum; continuou, porém, a receber tratamento de filho adotivo, mas criado com amor desmazelado e imprudente, e cresceu enfim sem hábito de trabalho.
Devia ter 20 anos, crioulo de raça pura africana, cabelos penteados, vestido com asseio e certa faceirice, era calçado e tinha vícios de linguagem.
Havia, no entanto, a expectativa de que seria alforriado quando o patrão morresse, o que não acontece, tendo este, em seu testamento, transferido a alforria certa para o momento em que a esposa falecesse.
Simeão, que já alimentava ódio contra os patrões, trama e realiza, juntamente com um comparsa, o assassinato da família toda e o saque do ouro e da prata que guardava. O quadro se reveste de maior crueldade porque os proprietários de Simeão se achavam, no íntimo, protetores bem-intencionados do mesmo, tendo, inclusive, na véspera do crime, decidido que iriam alforriá-lo imediatamente. Não eram, no entanto, capazes de questionar o sistema que os privilegiava, em todos os sentidos, e desumanizava o outro pólo (os escravos) da sociedade. Sistema que, Macedo diz com todas as letras, produz o ódio e o crime, no que o romancista estava se apoiando em dados da sociedade real.
Sua personalidade era ingratidão perversa, indiferença selvagem, inimizade, raiva, vícios, era vadio, dissimulado, ladrão, tinha instintos animais e era atrevido.
Seus senhores eram: Domingos Caetano, Angélica, Florinda e Hermano de Sales. Eram bons e humanos, tinham delicadeza de sentimentos e sentimentos generosos. Honestos e trabalhadores.
O autor constrói um perfil aterrorizante para o escravo, misto de tigre e serpente, de vítima e algoz, capaz de atacar quando menos se espera. Claramente procura amedrontar os brancos senhores de escravos e sugere como solução o fim da escravidão. Solução que configura a tese básica que passa pela conclusão de cada um dos três quadros da escravidão.
A novela não tem por final um desfecho romanesco, mas a reafirmação da tese do autor:
Simeão foi o mais ingrato e perverso dos homens.
Pois eu vos digo que Simeão, se não fosse escravo, poderia não ter sido nem ingrato, nem perverso.
A escravidão degrada, deprava, e torna o homem capaz dos mais medonhos crimes.
O narrador é didata: ele explicita a conduta, a forma de agir a ser adotada pelo leitor: Se quereis matar Simeão, acabar com Simeão, matai a mãe do crime, acabai com a escravidão.
2ª narrativa - "Pai-Raiol"
O feiticeiro. Algumas considerações do autor: o feitiço, como sífilis, veio da Àfrica; o escravo africano é o rei do feitiço.
Paulo Borges era um rico fazendeiro. Casara-se aos quarenta anos com Teresa, uma senhora ainda jovem que já lhe dera 2 filhos.
A compra de 20 escravos, entre eles Pai Raiol e Esméria. É o ano fatal de Paulo Borges. Acontece o adultério.
Os personagens são:
Paulo Borges - 46 anos. Alto, cabelos castanhos e crespos; fronte baixa sob sobrancelhas bastas; olhos pretos e belos, nariz aquilino; boca rasgada, lábios grossos e eróticos; rosto oval e bronzeado; seco de músculos; peitos largos e mãos engrandecidas e calejadas pelo trabalho. O tipo do lavrador honesto que hoje raramente se encontra, do pobre rico que se subtraia ao mundo, e só queria conhecer a roça e a casa, os escravos e a família, trabalhando sempre, gastando pouco, ajuntando muito, e não pesando a nenhum outro homem como ele. Não comprava homens, comprava máquinas; queria braços e não corações; gabava-se de senhor severo e forte, entrava nos seus timbres amansar os negros altanados e incorrigíveis.
Teresa - Jovem, simples de costumes, honesta, laboriosa, afeita à vida rural dos fazendeiros. Dirigia a dispensa, a enfermaria, e a grosseira rouparia dos escravos.
Os filhos Luís e Inês
Pai Raiol - Negro africano de 30 a 36 anos; baixa estatura, corpo exageradamente maior que as pernas; cabeça grande; olhos vesgos, mas brilhantes e impossíveis de se resistir à fixidez do seu olhar pela impressão incômoda do estrabismo duplo e por não sabermos que fruição de magnetismo infernal. Nas faces cicatrizes vultuosas de sarjaduras recebidas na infância: um golpe de azorrague partira pelo meio o lábio superior, e a fenda resultante deixara a descoberto dous dentes brancos, alvejantes, pontudos dentes caninos que pareciam ostentar-se ameaçadores. Sua boca era pois como mal fechada por três lábios; dous superiores e completamente separados, e um inferior perfeito. O rir era hediondo por semelhante deformidade. A barba retorcida e pobre, mal crescida no queixo, como erva mesquinha em solo árido. Suas orelhas perdera o terço da concha na parte superior, cortada irregularmente em violência de castigo ou furor de desordem. Tinha má reputação: desordem com os parceiros, furtos, envenenamentos. Já tivera 4 senhores. O último morrera de ulcerações no estômago e intestinos. Pai– Raiol acabara por dobrar-se humilde às condições da escravidão. Dizem que mudara devido aos seus felizes amores com a crioula Esméria, que com ele convivia e o dominava.
Esméria - Era uma crioula de 20 anos com as rudes feições da sua raça abrandadas pela influência da nova geração em mais suave clima; em seus olhos, porém, e no conjunto de seus traços fisionômicos, havia certa expressão de inteligência e de humildade que agradou à senhora. Esméria não era o que parecia. Refinara o fingimento. Via nos filhos de seus senhores futuros e aborrecidos opressores, e beijava-lhes os pés que às vezes desejava morder. Luzia-lhe nos olhos o amor da senhora, que a amava e distinguia, e lhe dispensava favores, e no fundo do coração maldizia dela. Invejava-lhe os vestidos, os gozos, a condição. Em sua louca vaidade pretendia ser mais bonita, mais bem feita, mais sedutora que Teresa. Era possessa do demônio da luxúria; amava os amantes de sua raça, preferia-os a todos os outros, mas envergonhava-se deles. Aspirava a fortuna do amor, da posse, da paixão delirante de um homem livre e rico. Ao contrário do que se pensava não havia uma influência benéfica de Esméria sobre o Pai-Raiol e sim uma influência satânica do Pai- Raiol sobre Esméria.
Tio Alberto
Lourença
O plano de Pai-Rayol: seis meses depois, os bois e as bestas morriam, e não havia peste: tornaram-se evidentes os sinais de envenenamento.
Em uma noite de ventania, o fogo devorou o imenso canavial. Mais uma vez as bestas, os bois e os carneiros morreram às dezenas, envenenados.
Paulo Borges amava Teresa, mas grosseiro escravo da sensualidade sucumbiu à sedução de Esméria. O demônio da lascívia deu poder à crioula. O senhor, o velho senhor ficou escravo da sua escrava.
O adultério hediondo faz da escrava rival da senhora, rival preferida que desordena a casa, enluta a família, e é cratera aberta do vulcão que espalha a ruína.
Teresa descobre o adultério e a traição: envelhecera 20 anos em 8 dias.
Atropelando a decência, insultando manifestamente a esposa, semeando a indisciplina e a mais perigosa desmoralização na fazenda, Paulo freqüentou de dia e aos olhos de todos, a senzala de Esméria.
Morre Teresa envenenada por Esméria. Esméria assume a casa do amante. Morre o filho recém-nascido de Teresa e Paulo, por falta do aleitamento materno; morrem Luís e Inês envenenados; Esméria começa a envenenar Paulo.
Lourença denuncia Esméria e prova a verdade a Paulo. Pai-Raiol é morto em uma luta pelo tio Alberto que é alforriado por Paulo. Esméria é presa. Paulo Borges arrasta sombria velhice atormentado pelos remorsos.
3ª narrativa - "Lucinda - A mucama"
É o terceiro e último romance em As vítimas-algozes.
Os personagens são:
Lucinda - "Engomo, coso, penteio e sei fazer bonecas"; a mulher escrava, uma filha da mãe fera, uma vítima da opressão social, uma onda envenenada desse oceano de vícios obrigados, de perversão lógica, de imoralidade congênita, de influência corruptora e falaz, desse monstro de criaturas humanas, que se chama escravidão. Tem 12 anos, um pouco magra, de estatura regular, ligeira de movimentos, afetada sem excesso condenável no andar. Muito viva e alegre com pretensões a bom gosto no vestir; com aparências de compostura decente nos modos; diligente e satisfeita no trabalho. Trazia dissimuladamente escondidos os conhecimentos e noviciados dos vícios e das perversões da escravidão; corrupta, licenciosa, imoral; indigna de se aproximar de uma senhora honesta, quanto mais de uma inocente menina.
Plácido Rodrigues - padrinho de Cândida, o mais opulento fazendeiro e capitalista do lugar; pai de Frederico.
Frederico - perdeu a mãe ao nascer e foi amamentado por Leonídia. Inteligente e estudioso. Reflexão fria e segurança de juízo. Foi juntamente com Liberato à Europa para fazer estudos regulares de agricultura e pretendiam continuar os estudos nos Estados Unidos. Fronte magnífica, a face porém descarnada, de ossos salientes, pálida, desproporcionada e melancólica, os olhos ardentes. Dedicado aos amigos e na dedicação capaz de ir até a heroicidade. Muito racional. Era ele o planejado noivo de Cândida.
Cândida - loura, olhos azuis e belos, olhar de suavidade cativadora; rosto oval da cor da magnólia com duas rosas a insinuarem-se nas faces; os lábios quase imperceptivelmente arqueados, lindíssimos, os dentes iguais, de justa proporção e de esmalte puríssimo; as mãos e os pés de perfeição e delicadeza maravilhosas; o pescoço e o corpo com a gentileza própria de sua idade. Cândida antes de Lucinda tinha 11 anos e com a perfeita inocência de sua primeira infância; espírito cheio de luz suave e idéias serenas e preciosas; eeu coração era um altar adornado pelo amor de seus pais. Cândida de pois de Lucinda era capaz de ser ardilosa e dissimulada para enganar a mãe; "prendeu a alma às palavras venenosas, às explicações necessariamente imorais da escrava".
Florêncio da Silva - honrado, inteligente e rico negociante; um pouco agricultor por distração e gosto: bom, afável e generoso, repartindo as sobras da riqueza que acumulava com os pobres que não eram vadios; tinha poderosa e legítima influência eleitoral e política na sua comarca.
Leonídia - esposa modelo; mãe extremosa.
Liberato - irmão mais velho de Cândida; bonito de rosto e elegante de figura; fazia seus estudos preparatórios na Corte; muito amigo de Frederico, inteligente e estudioso; possuía brilhantismo de imaginação.
Alfredo Souvanel - Amigo de Liberato e Frederico. Encontraram–se na Suíça. Tinha 26 anos, estatura regular, louro, de olhos cintilantes, era de aspecto agradável, bem talhado de corpo. Esmerava-se no trajar, embora não tivesse muitos recursos. Tinha instrução superficial, mas inteligência fácil, espírito, e gênio alegre. Habilíssimo pianista e excelente voz de barítono. Era francês, mas esperava ganhar dinheiro no Brasil ensinando piano e canto. Era o mais alegrão, travesso, original, espirituoso e endiabrado companheiro de folganças. Tornou-se professor de Cândida.
A narrativa conta a história de Cândida, filha de honrado negociante e agricultor do interior da província do Rio de Janeiro. Em seu aniversário de onze anos, a menina recebera de presente do padrinho, Plácido Rodrigues, “o mais opulento fazendeiro e capitalista do lugar”, uma escrava crioula chamada Lucinda, de doze anos, que havia sido enviada à Corte para aprender a servir de mucama. A mucama logo conquistou a senhorinha ao dizer que sabia fazer bonecas e penteá-las. O padrinho empenhara-se em conseguir uma escrava que pudesse agradar a afilhada porque sabia que a menina andava triste devido à recente partida de Joana, “uma boa senhora, mulher pobre, mas livre e de sãos costumes, que fora sua ama de leite e a idolatrava como seus pais”. Joana, que enviuvara ainda moça, encontrara segundo noivo num “laborioso e honrado lavrador”, deixando por isso a sua adorada Cândida “com o maior pesar”.
Macedo oferece uma primeira ilustração de sua tese no romance ao contrastar a virtuosíssima Joana com a mucama Lucinda. Joana é descrita como uma “segunda mãe”, “criada amiga”, “companheira do seu quarto de dormir”, mulher “simples, boa e religiosa”. Cândida perdera “a companhia da mulher que era nobre, porque era livre” e que servia com o “coração cheio de amor generoso”, algo só possível “quando a liberdade exclui toda imposição de deveres forçados por vontade absoluta de senhor”. Em substituição, a menina recebera a crioula quase de sua idade, “a mulher escrava, uma filha da mãe fera, uma vítima da opressão social, uma onda envenenada desse oceano de vícios obrigados, de perversão lógica, de imoralidade congênita, de influência corruptora e falaz, desse monstro desumanizador de criaturas humanas, que se chama escravidão”. Diante desse quadro os acontecimentos desenrolam-se naturalmente, sendo que o maior desafio é entender o porquê de Macedo ter achado necessário escrever quase quatrocentas páginas para contar essa história. A mucama tem uma influência nefasta sobre a donzela, de quem se torna a única confidente nos anos seguintes. Ensina-lhe o que ocorre quando a menina vira moça, desperta-lhe a curiosidade pelos rapazes, ministra-lhe lições de flerte e namoro, mostra-lhe ser mais divertido namorar vários rapazes ao mesmo tempo, e assim por diante, num desfilar constante de idéias destinadas a “excitar os sentidos” da donzela cândida e pura. As lições de amor da mucama eram inspiradas “pelo sensualismo brutal, em que se resume todo o amor nos escravos”; portanto, “a mucama escrava ao pé da menina e da donzela é o charco posto em comunicação com a fonte límpida”.
Com a mucama escrava infiltrada no quarto da donzela, foi possível a um conquistador barato, um francês estróina e ladrão, insinuar-se aos amores de Cândida, conquistá-la efetivamente e tirar-lhe o maior símbolo da honestidade feminina. Lucinda, criatura ruim como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, tornara-se ela mesma amante de Souvanel, tramara tudo com ele, e até abrira o quarto da virgem para a consumação do delito. A idéia dos biltres era forçar o casamento de Souvanel com Cândida; dado o golpe do baú, Lucinda ganharia a liberdade e ficaria teúda e manteúda do francês. No final, Frederico, criatura virtuosa como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, filho do padrinho de Cândida, apaixonado por ela desde menino, perdoa o erro da amada e casa com ela. Descobrira-se que Souvanel era na verdade Dermany, criminoso procurado na França. O vilão é preso e deportado. Lucinda e o pajem do pai de Cândida, também envolvido na trama para aproximar Souvanel da donzela, fogem dos senhores, são capturados, mas acabam abandonados ao poder público pela família. Frederico, o anjo, fecha o romance e o nosso martírio com um discurso abolicionista que aqui transcrevo, para martirizar o leitor, ou ao menos para dividir com ele o meu sofrimento. O discurso aparece nas páginas 388 e 389 do segundo volume de As vítimas-algozes (o primeiro volume, com outras duas histórias). Referindo-se a Lucinda e ao pajem, “esses dous traidores e perversos”, Frederico disse:
- Árvore da escravidão deram seus frutos. Quem pede ao charco água pura, saúde à peste, vida ao veneno que mata, moralidade à depravação, é louco. Dizeis que com os escravos, e pelo seu trabalho vos enriqueceis: que seja assim; mas em primeiro lugar donde tirais o direito da opressão? ...em face de que Deus vos direis senhores de homens, que são homens como vós, e de que vos intitulais donos, senhores, árbitros absolutos? ... e depois com esses escravos ao pé de vós, em torno de vós, com esses miseráveis degradados pela condição violentada, engolfados nos vícios mais torpes, materializados, corruptos, apodrecidos na escravidão, pestíferos pelo viver no pantanal [“patanal”, no original] da peste e tão vis tão perigosos postos em contato convosco, com vossas esposas, com vossas filhas, que podereis esperar desses escravos, do seu contato obrigado, da sua influência fatal? ...Oh! bani a escravidão!... a escravidão é um crime da sociedade escravagista, e a escravidão se vinga desmoralizando, envenenando [“evenenando”, no original], desonrando, empestando, assassinando seus opressores. Oh! ...bani a escravidão! bani a escravidão! bani a escravidão!....
Nota: Ainda que Macedo atribua os defeitos morais de Lucinda e seus pares à instituição da escravidão, a sua descrição dos cativos é tão impiedosamente desfavorável que torna-se difícil pensar na possibilidade de que essas pessoas, uma vez libertas, possam usufruir de direitos de cidadania e participar da vida política. De fato, uma característica intrigante de vários pronunciamentos favoráveis à lei de 1871 era a descrição dos escravos como seres quase destituídos de humanidade, pois a violência da instituição os desprovia de cultura, de regras de comportamento; por conseguinte, não desenvolviam laços de família, relacionavam-se sexualmente como animais, atacavam os senhores como bestas feras. Enfim, pareciam condenados a uma espécie de coisificação moral, resultado direto de sua condição de propriedade, de sua representação como coisa no direito positivo.Fonte: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/as_vitimas_algozes_quadros_da_escravidao
A obra não agradou o público oitocentista e recebeu várias críticas publicadas na imprensa, sendo considerado por Ubiratan Machado como “o livro mais atacado pela crítica durante o período romântico”.
As Vítimas-Algozes é, ao seu modo, um romance abolicionista. Não daquele abolicionismo que encontramos nas obras dos poetas acima relacionados. Como explica Macedo, na nota “Aos Nossos Leitores”, não lhe interessou, nas “educativas” e “moralizantes” histórias que entregava aos consumidores de sua vasta obra, pintar “o quadro do mal que o senhor, ainda sem querer, faz ao escravo”, mas, sim, o “quadro do mal que o escravo faz de assento propósito ou às vezes irrefletidamente ao senhor”. Dito de maneira mais direta, o romance antiescravista de Macedo quer convencer os seus leitores de que é preciso libertar os escravos não por razões humanitárias, mas porque os cativos, sempre imiscuídos nas casas-grandes e sobrados, introduzem a corrupção física e moral no seio das famílias brancas.
Na obra o autor expressa a idéia de que a escravidão faz vítimas algozes e deve ser gradualmente extinta, sem prejuízo para os grandes proprietários de terra. Num tom conservador e usando personagens como a escrava Lucinda, o autor defende a tese de que a escravidão cria vítimas oprimidas socialmente, mas com uma perversão lógica, imoral e com influência corruptora.
O tratamento entre patrão e escravo nos últimos anos do cativeiro, uma intimidade que beira o sado-masoquismo foi retratada por Joaquim Manuel de Macedo neste livro. Ele denuncia que, se o escravo é inegavelmente vítima de um regime desumano, a sua presença igualmente desagrega a sociedade branca no que ela teria de mais recomendável.
A obra é um retrato perfeito do Brasil pós-abolicionista.
De acordo com o contexto histórico da época, Joaquim Manuel alertava ao leitor burguês de que o melhor a fazer era gradualmente abolir a escravidão. Depois da abolição, ele explica que os negros foram 'largados' nas favelas, como acontece no início do filme "Cidade de Deus".
Desfilam pelas páginas das três histórias que compõem o livro: o negro feiticeiro, o “moleque” traiçoeiro, a escrava assassina, as negras que se amasiam com seus patrões, a mucama lasciva, os negros desocupados dos botequins, os mulatos espertalhões, enfim, um sem número de tipos que demonstram ao leitor o quão comprometedor da estabilidade social era a presença do escravo na intimidade doméstica.
O objetivo político das três histórias que compõem o livro está claro desde a nota inicial aos leitores. Professando narrar apenas “histórias verdadeiras”, queria firmar, na “consciência” do público, “as verdades que vamos dizer”. Obra de convencimento, portanto, As vítimas-algozes era tentativa de obrigar os leitores a “encarar de face, a medir, a sondar em toda sua profundeza um mal enorme que afeia, infecciona, avilta, deturpa e corrói a nossa sociedade, e a que nossa sociedade ainda se apega semelhante a desgraçada mulher que, tomando o hábito da prostituição, a ela se abandona com indecente desvario”. A retórica é semelhante àquela dos conselheiros de Estado em 1867, e Macedo recita as estrofes do isolamento internacional do país, do exemplo da guerra civil americana, do processo de emancipação em Cuba, e do caráter “implacável” da reforma, “exigência (...) da civilização e do século”. Afirma que a escravidão é “cancro social”, que se não “estirpa (...) sem dor”; mas o “adiamento teimoso do problema” agravaria o mal, pois o país poderia ter de enfrentar a “emancipação imediata e absoluta dos escravos”, colocando “em convulsão o país, em desordem descomunal e em soçobro a riqueza particular e pública, em miséria o povo, em bancarrota o Estado”.
O cenário apocalíptico que Macedo antevê como decorrência de uma possível emancipação imediata dos escravos revela já de início o que seria esta obra, a forma como faz desfilar uma galeria medonha de escravos astuciosos, trapaceiros e devassos, sempre dispostos a ludibriar os senhores e ameaçar os valores e o bem-estar da família senhorial. Preocupado em não deixar nada por explicar, Macedo esclarece que havia dois caminhos a seguir para mostrar aos leitores “a reprovação profunda que deve inspirar a escravidão”. O primeiro consistiria em narrar as misérias e os sofrimentos dos escravos, suas vidas “de amarguras sem termo”, o “inferno perpétuo no mundo negro da escravidão”. Seria o quadro do mal que o senhor faz ao escravo, “ainda sem querer”. O segundo caminho, aquele escolhido por Macedo, mostraria “os vícios ignóbeis, a perversão, os ódios, os ferozes instintos dos escravos, inimigo natural e rancoroso do seu senhor”. Seria o quadro do mal que o escravo faz ao senhor, “de assentado propósito ou às vezes involuntária e irrefletidamente”.
1ª narrativa - "Simeão, o crioulo"
O protagonista, Simeão, perdera a mãe, que fora ama-de-leite da sinhazinha, aos dois anos, tendo sido criado pelos patrões. Até os oito anos de idade Simeão teve prato à mesa e leito no quarto de seus senhores, e não teve consciência de sua condição de escravo.
Tinha algumas regalias em função disso, mas não deixava de ter o estatuto e o tratamento de escravo, fator que se agravava e se tornava mais claro conforme ele se fazia adulto.
Depois dos oito anos apenas foi privado da mesa e do quarto em comum; continuou, porém, a receber tratamento de filho adotivo, mas criado com amor desmazelado e imprudente, e cresceu enfim sem hábito de trabalho.
Devia ter 20 anos, crioulo de raça pura africana, cabelos penteados, vestido com asseio e certa faceirice, era calçado e tinha vícios de linguagem.
Havia, no entanto, a expectativa de que seria alforriado quando o patrão morresse, o que não acontece, tendo este, em seu testamento, transferido a alforria certa para o momento em que a esposa falecesse.
Simeão, que já alimentava ódio contra os patrões, trama e realiza, juntamente com um comparsa, o assassinato da família toda e o saque do ouro e da prata que guardava. O quadro se reveste de maior crueldade porque os proprietários de Simeão se achavam, no íntimo, protetores bem-intencionados do mesmo, tendo, inclusive, na véspera do crime, decidido que iriam alforriá-lo imediatamente. Não eram, no entanto, capazes de questionar o sistema que os privilegiava, em todos os sentidos, e desumanizava o outro pólo (os escravos) da sociedade. Sistema que, Macedo diz com todas as letras, produz o ódio e o crime, no que o romancista estava se apoiando em dados da sociedade real.
Sua personalidade era ingratidão perversa, indiferença selvagem, inimizade, raiva, vícios, era vadio, dissimulado, ladrão, tinha instintos animais e era atrevido.
Seus senhores eram: Domingos Caetano, Angélica, Florinda e Hermano de Sales. Eram bons e humanos, tinham delicadeza de sentimentos e sentimentos generosos. Honestos e trabalhadores.
O autor constrói um perfil aterrorizante para o escravo, misto de tigre e serpente, de vítima e algoz, capaz de atacar quando menos se espera. Claramente procura amedrontar os brancos senhores de escravos e sugere como solução o fim da escravidão. Solução que configura a tese básica que passa pela conclusão de cada um dos três quadros da escravidão.
A novela não tem por final um desfecho romanesco, mas a reafirmação da tese do autor:
Simeão foi o mais ingrato e perverso dos homens.
Pois eu vos digo que Simeão, se não fosse escravo, poderia não ter sido nem ingrato, nem perverso.
A escravidão degrada, deprava, e torna o homem capaz dos mais medonhos crimes.
O narrador é didata: ele explicita a conduta, a forma de agir a ser adotada pelo leitor: Se quereis matar Simeão, acabar com Simeão, matai a mãe do crime, acabai com a escravidão.
2ª narrativa - "Pai-Raiol"
O feiticeiro. Algumas considerações do autor: o feitiço, como sífilis, veio da Àfrica; o escravo africano é o rei do feitiço.
Paulo Borges era um rico fazendeiro. Casara-se aos quarenta anos com Teresa, uma senhora ainda jovem que já lhe dera 2 filhos.
A compra de 20 escravos, entre eles Pai Raiol e Esméria. É o ano fatal de Paulo Borges. Acontece o adultério.
Os personagens são:
Paulo Borges - 46 anos. Alto, cabelos castanhos e crespos; fronte baixa sob sobrancelhas bastas; olhos pretos e belos, nariz aquilino; boca rasgada, lábios grossos e eróticos; rosto oval e bronzeado; seco de músculos; peitos largos e mãos engrandecidas e calejadas pelo trabalho. O tipo do lavrador honesto que hoje raramente se encontra, do pobre rico que se subtraia ao mundo, e só queria conhecer a roça e a casa, os escravos e a família, trabalhando sempre, gastando pouco, ajuntando muito, e não pesando a nenhum outro homem como ele. Não comprava homens, comprava máquinas; queria braços e não corações; gabava-se de senhor severo e forte, entrava nos seus timbres amansar os negros altanados e incorrigíveis.
Teresa - Jovem, simples de costumes, honesta, laboriosa, afeita à vida rural dos fazendeiros. Dirigia a dispensa, a enfermaria, e a grosseira rouparia dos escravos.
Os filhos Luís e Inês
Pai Raiol - Negro africano de 30 a 36 anos; baixa estatura, corpo exageradamente maior que as pernas; cabeça grande; olhos vesgos, mas brilhantes e impossíveis de se resistir à fixidez do seu olhar pela impressão incômoda do estrabismo duplo e por não sabermos que fruição de magnetismo infernal. Nas faces cicatrizes vultuosas de sarjaduras recebidas na infância: um golpe de azorrague partira pelo meio o lábio superior, e a fenda resultante deixara a descoberto dous dentes brancos, alvejantes, pontudos dentes caninos que pareciam ostentar-se ameaçadores. Sua boca era pois como mal fechada por três lábios; dous superiores e completamente separados, e um inferior perfeito. O rir era hediondo por semelhante deformidade. A barba retorcida e pobre, mal crescida no queixo, como erva mesquinha em solo árido. Suas orelhas perdera o terço da concha na parte superior, cortada irregularmente em violência de castigo ou furor de desordem. Tinha má reputação: desordem com os parceiros, furtos, envenenamentos. Já tivera 4 senhores. O último morrera de ulcerações no estômago e intestinos. Pai– Raiol acabara por dobrar-se humilde às condições da escravidão. Dizem que mudara devido aos seus felizes amores com a crioula Esméria, que com ele convivia e o dominava.
Esméria - Era uma crioula de 20 anos com as rudes feições da sua raça abrandadas pela influência da nova geração em mais suave clima; em seus olhos, porém, e no conjunto de seus traços fisionômicos, havia certa expressão de inteligência e de humildade que agradou à senhora. Esméria não era o que parecia. Refinara o fingimento. Via nos filhos de seus senhores futuros e aborrecidos opressores, e beijava-lhes os pés que às vezes desejava morder. Luzia-lhe nos olhos o amor da senhora, que a amava e distinguia, e lhe dispensava favores, e no fundo do coração maldizia dela. Invejava-lhe os vestidos, os gozos, a condição. Em sua louca vaidade pretendia ser mais bonita, mais bem feita, mais sedutora que Teresa. Era possessa do demônio da luxúria; amava os amantes de sua raça, preferia-os a todos os outros, mas envergonhava-se deles. Aspirava a fortuna do amor, da posse, da paixão delirante de um homem livre e rico. Ao contrário do que se pensava não havia uma influência benéfica de Esméria sobre o Pai-Raiol e sim uma influência satânica do Pai- Raiol sobre Esméria.
Tio Alberto
Lourença
O plano de Pai-Rayol: seis meses depois, os bois e as bestas morriam, e não havia peste: tornaram-se evidentes os sinais de envenenamento.
Em uma noite de ventania, o fogo devorou o imenso canavial. Mais uma vez as bestas, os bois e os carneiros morreram às dezenas, envenenados.
Paulo Borges amava Teresa, mas grosseiro escravo da sensualidade sucumbiu à sedução de Esméria. O demônio da lascívia deu poder à crioula. O senhor, o velho senhor ficou escravo da sua escrava.
O adultério hediondo faz da escrava rival da senhora, rival preferida que desordena a casa, enluta a família, e é cratera aberta do vulcão que espalha a ruína.
Teresa descobre o adultério e a traição: envelhecera 20 anos em 8 dias.
Atropelando a decência, insultando manifestamente a esposa, semeando a indisciplina e a mais perigosa desmoralização na fazenda, Paulo freqüentou de dia e aos olhos de todos, a senzala de Esméria.
Morre Teresa envenenada por Esméria. Esméria assume a casa do amante. Morre o filho recém-nascido de Teresa e Paulo, por falta do aleitamento materno; morrem Luís e Inês envenenados; Esméria começa a envenenar Paulo.
Lourença denuncia Esméria e prova a verdade a Paulo. Pai-Raiol é morto em uma luta pelo tio Alberto que é alforriado por Paulo. Esméria é presa. Paulo Borges arrasta sombria velhice atormentado pelos remorsos.
3ª narrativa - "Lucinda - A mucama"
É o terceiro e último romance em As vítimas-algozes.
Os personagens são:
Lucinda - "Engomo, coso, penteio e sei fazer bonecas"; a mulher escrava, uma filha da mãe fera, uma vítima da opressão social, uma onda envenenada desse oceano de vícios obrigados, de perversão lógica, de imoralidade congênita, de influência corruptora e falaz, desse monstro de criaturas humanas, que se chama escravidão. Tem 12 anos, um pouco magra, de estatura regular, ligeira de movimentos, afetada sem excesso condenável no andar. Muito viva e alegre com pretensões a bom gosto no vestir; com aparências de compostura decente nos modos; diligente e satisfeita no trabalho. Trazia dissimuladamente escondidos os conhecimentos e noviciados dos vícios e das perversões da escravidão; corrupta, licenciosa, imoral; indigna de se aproximar de uma senhora honesta, quanto mais de uma inocente menina.
Plácido Rodrigues - padrinho de Cândida, o mais opulento fazendeiro e capitalista do lugar; pai de Frederico.
Frederico - perdeu a mãe ao nascer e foi amamentado por Leonídia. Inteligente e estudioso. Reflexão fria e segurança de juízo. Foi juntamente com Liberato à Europa para fazer estudos regulares de agricultura e pretendiam continuar os estudos nos Estados Unidos. Fronte magnífica, a face porém descarnada, de ossos salientes, pálida, desproporcionada e melancólica, os olhos ardentes. Dedicado aos amigos e na dedicação capaz de ir até a heroicidade. Muito racional. Era ele o planejado noivo de Cândida.
Cândida - loura, olhos azuis e belos, olhar de suavidade cativadora; rosto oval da cor da magnólia com duas rosas a insinuarem-se nas faces; os lábios quase imperceptivelmente arqueados, lindíssimos, os dentes iguais, de justa proporção e de esmalte puríssimo; as mãos e os pés de perfeição e delicadeza maravilhosas; o pescoço e o corpo com a gentileza própria de sua idade. Cândida antes de Lucinda tinha 11 anos e com a perfeita inocência de sua primeira infância; espírito cheio de luz suave e idéias serenas e preciosas; eeu coração era um altar adornado pelo amor de seus pais. Cândida de pois de Lucinda era capaz de ser ardilosa e dissimulada para enganar a mãe; "prendeu a alma às palavras venenosas, às explicações necessariamente imorais da escrava".
Florêncio da Silva - honrado, inteligente e rico negociante; um pouco agricultor por distração e gosto: bom, afável e generoso, repartindo as sobras da riqueza que acumulava com os pobres que não eram vadios; tinha poderosa e legítima influência eleitoral e política na sua comarca.
Leonídia - esposa modelo; mãe extremosa.
Liberato - irmão mais velho de Cândida; bonito de rosto e elegante de figura; fazia seus estudos preparatórios na Corte; muito amigo de Frederico, inteligente e estudioso; possuía brilhantismo de imaginação.
Alfredo Souvanel - Amigo de Liberato e Frederico. Encontraram–se na Suíça. Tinha 26 anos, estatura regular, louro, de olhos cintilantes, era de aspecto agradável, bem talhado de corpo. Esmerava-se no trajar, embora não tivesse muitos recursos. Tinha instrução superficial, mas inteligência fácil, espírito, e gênio alegre. Habilíssimo pianista e excelente voz de barítono. Era francês, mas esperava ganhar dinheiro no Brasil ensinando piano e canto. Era o mais alegrão, travesso, original, espirituoso e endiabrado companheiro de folganças. Tornou-se professor de Cândida.
A narrativa conta a história de Cândida, filha de honrado negociante e agricultor do interior da província do Rio de Janeiro. Em seu aniversário de onze anos, a menina recebera de presente do padrinho, Plácido Rodrigues, “o mais opulento fazendeiro e capitalista do lugar”, uma escrava crioula chamada Lucinda, de doze anos, que havia sido enviada à Corte para aprender a servir de mucama. A mucama logo conquistou a senhorinha ao dizer que sabia fazer bonecas e penteá-las. O padrinho empenhara-se em conseguir uma escrava que pudesse agradar a afilhada porque sabia que a menina andava triste devido à recente partida de Joana, “uma boa senhora, mulher pobre, mas livre e de sãos costumes, que fora sua ama de leite e a idolatrava como seus pais”. Joana, que enviuvara ainda moça, encontrara segundo noivo num “laborioso e honrado lavrador”, deixando por isso a sua adorada Cândida “com o maior pesar”.
Macedo oferece uma primeira ilustração de sua tese no romance ao contrastar a virtuosíssima Joana com a mucama Lucinda. Joana é descrita como uma “segunda mãe”, “criada amiga”, “companheira do seu quarto de dormir”, mulher “simples, boa e religiosa”. Cândida perdera “a companhia da mulher que era nobre, porque era livre” e que servia com o “coração cheio de amor generoso”, algo só possível “quando a liberdade exclui toda imposição de deveres forçados por vontade absoluta de senhor”. Em substituição, a menina recebera a crioula quase de sua idade, “a mulher escrava, uma filha da mãe fera, uma vítima da opressão social, uma onda envenenada desse oceano de vícios obrigados, de perversão lógica, de imoralidade congênita, de influência corruptora e falaz, desse monstro desumanizador de criaturas humanas, que se chama escravidão”. Diante desse quadro os acontecimentos desenrolam-se naturalmente, sendo que o maior desafio é entender o porquê de Macedo ter achado necessário escrever quase quatrocentas páginas para contar essa história. A mucama tem uma influência nefasta sobre a donzela, de quem se torna a única confidente nos anos seguintes. Ensina-lhe o que ocorre quando a menina vira moça, desperta-lhe a curiosidade pelos rapazes, ministra-lhe lições de flerte e namoro, mostra-lhe ser mais divertido namorar vários rapazes ao mesmo tempo, e assim por diante, num desfilar constante de idéias destinadas a “excitar os sentidos” da donzela cândida e pura. As lições de amor da mucama eram inspiradas “pelo sensualismo brutal, em que se resume todo o amor nos escravos”; portanto, “a mucama escrava ao pé da menina e da donzela é o charco posto em comunicação com a fonte límpida”.
Com a mucama escrava infiltrada no quarto da donzela, foi possível a um conquistador barato, um francês estróina e ladrão, insinuar-se aos amores de Cândida, conquistá-la efetivamente e tirar-lhe o maior símbolo da honestidade feminina. Lucinda, criatura ruim como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, tornara-se ela mesma amante de Souvanel, tramara tudo com ele, e até abrira o quarto da virgem para a consumação do delito. A idéia dos biltres era forçar o casamento de Souvanel com Cândida; dado o golpe do baú, Lucinda ganharia a liberdade e ficaria teúda e manteúda do francês. No final, Frederico, criatura virtuosa como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, filho do padrinho de Cândida, apaixonado por ela desde menino, perdoa o erro da amada e casa com ela. Descobrira-se que Souvanel era na verdade Dermany, criminoso procurado na França. O vilão é preso e deportado. Lucinda e o pajem do pai de Cândida, também envolvido na trama para aproximar Souvanel da donzela, fogem dos senhores, são capturados, mas acabam abandonados ao poder público pela família. Frederico, o anjo, fecha o romance e o nosso martírio com um discurso abolicionista que aqui transcrevo, para martirizar o leitor, ou ao menos para dividir com ele o meu sofrimento. O discurso aparece nas páginas 388 e 389 do segundo volume de As vítimas-algozes (o primeiro volume, com outras duas histórias). Referindo-se a Lucinda e ao pajem, “esses dous traidores e perversos”, Frederico disse:
- Árvore da escravidão deram seus frutos. Quem pede ao charco água pura, saúde à peste, vida ao veneno que mata, moralidade à depravação, é louco. Dizeis que com os escravos, e pelo seu trabalho vos enriqueceis: que seja assim; mas em primeiro lugar donde tirais o direito da opressão? ...em face de que Deus vos direis senhores de homens, que são homens como vós, e de que vos intitulais donos, senhores, árbitros absolutos? ... e depois com esses escravos ao pé de vós, em torno de vós, com esses miseráveis degradados pela condição violentada, engolfados nos vícios mais torpes, materializados, corruptos, apodrecidos na escravidão, pestíferos pelo viver no pantanal [“patanal”, no original] da peste e tão vis tão perigosos postos em contato convosco, com vossas esposas, com vossas filhas, que podereis esperar desses escravos, do seu contato obrigado, da sua influência fatal? ...Oh! bani a escravidão!... a escravidão é um crime da sociedade escravagista, e a escravidão se vinga desmoralizando, envenenando [“evenenando”, no original], desonrando, empestando, assassinando seus opressores. Oh! ...bani a escravidão! bani a escravidão! bani a escravidão!....
Nota: Ainda que Macedo atribua os defeitos morais de Lucinda e seus pares à instituição da escravidão, a sua descrição dos cativos é tão impiedosamente desfavorável que torna-se difícil pensar na possibilidade de que essas pessoas, uma vez libertas, possam usufruir de direitos de cidadania e participar da vida política. De fato, uma característica intrigante de vários pronunciamentos favoráveis à lei de 1871 era a descrição dos escravos como seres quase destituídos de humanidade, pois a violência da instituição os desprovia de cultura, de regras de comportamento; por conseguinte, não desenvolviam laços de família, relacionavam-se sexualmente como animais, atacavam os senhores como bestas feras. Enfim, pareciam condenados a uma espécie de coisificação moral, resultado direto de sua condição de propriedade, de sua representação como coisa no direito positivo.Fonte: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/as_vitimas_algozes_quadros_da_escravidao
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Quinhentismo Brasileiro
Caro (a) amigo (a),
o Quinhentismo foi a primeira escola literária brasileira, Seu grande marco é a Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel.
São Características principais da literatura informativa:
linguagem objetiva;
uso de superlativos;
maior valor histórico.
Vamos refletir um pouco sobre a carta:
"Senhor:
Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer.
Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu."
Neste trecho, Pero Vaz deixa claro o objetivo de descrever apenas aquilo que vê, evidenciando que irá fazer o seu relato sem o uso de recursos linguísticos que ornamentem a escrita, para não correr o risco de tornar a linguagem subjetiva e sujeita a interpretações indesejadas. Dai, comprendermos que se trata de uma literatura mais descritiva, objetiva, de objetivo informativo. Seu valor maior se dá por ser um dos primeiros registros mais completos sobre as terras brasileiras no período do "achamento" da nossa terra, com descrições sobre as características físicas e o comportamento dos gentis; sobre a fauna e a flora exuberantes e multifacetadas.
Importante lembrar que o pensamento renascentista e as necessidades econômicas da época induziram Portugal a "desbravar mares nunca d'antes navegados". Contudo, a ideologia q imperava não era a cientificista nem tampouco a da Reforma Protestante; mas sim a da Contra-reforma. Por isso se diz que o Brasil foi "descoberto" com uma cruz - igreja - e uma espada - da nobreza. De um lado, a Igreja Católica com a necessidade de construir um novo estado cristão. Por outro lado, a necessidade da coroa de expandir suas riquezas na tentativa de superar os problemas econômicos já existentes.
Quanto à literatura jesuítica, tinha o objetivo de catequisar os colonos e trazer informações sobre a converção dos jentis.
Sobre os sentimentos dos navegadores, vejamos as ilustrações a seguir:
Fernando Pessoa, escritor portugues do modernismo, retoma a
expressão "Navegar é preciso, viver não é preciso", = "Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu] e escreve:
NAVEGAR É PRECISO
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
Neste poema Pessoa toma como exemplo o sentimento de medo e a extrema coragem dos navegadores, para espelhar o seu viver, como se esse fosse uma nau a desbravar os mares, com a força, a bravura de quem quer ser maior do que o é, de quem quer alargar a consciência e fazer da própria vida, uma viagem com mil e uma conquistas.
Caetano Veloso, então inspirando-se em Pessoa, compõe OS ARGONAUTAS. Vejamos a letra e ouçamos esta canção:
Os Argonautas
Caetano Veloso
Meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso...(2x)
O Barco!
Noite no teu, tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso (2x)
O Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso...(6x)
Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=1sXg-XcP9wM&feature=related
Desta maneira, ele amplia o campo semântico da primeira expressão criada por Pompeu, atribuindo sentido aos relacionamentos, amorosos e à existência, como se toda a vida fosse uma grande viagem.
Então sigamos os exemplos dos grandes poetas e navegadores e desbravemos os mares das nossas almas.
Para se inteirar mais, veja a pesquisa a seguir:
Saudações Literárias!
Desta maneira, ele amplia o campo semântico da primeira expressão criada por Pompeu, atribuindo sentido aos relacionamentos, amorosos e à existência, como se toda a vida fosse uma grande viagem.
Então sigamos os exemplos dos grandes poetas e navegadores e desbravemos os mares das nossas almas.
Para se inteirar mais, veja a pesquisa a seguir:
"O Quinhentismo, fase da literatura brasileira do século XVI, tem este nome pelo fato das manifestações literárias se iniciarem no ano de 1.500, época da colonização portuguesa no Brasil. A literatura brasileira, na verdade, ainda não tinha sua identidade, a qual foi sendo formada sob a influência da literatura portuguesa e européia em geral. Logo, não havia produção literária ligada diretamente ao povo brasileiro, mas sim obras no Brasil que davam significação aos europeus. No entanto, com o passar dos anos, as literaturas informativa e dos jesuítas, foi dando lugar a denotações da visão dos artistas brasileiros.
Na época da colonização brasileira, a Europa vivia seu apogeu no Renascimento, o comércio se despontava, enquanto o êxodo rural provocava um surto de urbanização. Enquanto o homem europeu se dividia entre a conquista material e a espiritual (Contra-Reforma), o cidadão brasileiro encontrava no quinhentismo semelhante dicotomia: a literatura informativa, que se voltava para assuntos de natureza material (ouro, prata, ferro, madeira) feita através de cartas dos viajantes ou dos cronistas e a literatura dos jesuítas, que tentavam inserir a catequese.
A carta de Pero Vaz de Caminha traz a referida dicotomia claramente expressa, pois valoriza as conquistas e aventuras marítimas (literatura informativa) ao mesmo tempo que a expansão do cristianismo (literatura jesuíta).
A literatura dos jesuítas tinha como objetivo principal o da catequese. Este trabalho de catequizar norteou as produções literárias na poesia de devoção e no teatro inspirado nas passagens bíblicas.
A literatura dos jesuítas tinha como objetivo principal o da catequese. Este trabalho de catequizar norteou as produções literárias na poesia de devoção e no teatro inspirado nas passagens bíblicas.
José de Anchieta é o principal autor jesuíta da época do Quinhentismo, viveu entre os índios, pelos quais era chamado de piahy, que significa “supremo pajé branco”. Foi o autor da primeira gramática do tupi-guarani e também de várias poesias de devoção."
Fonte: http://www.brasilescola.com/literatura/quinhentismo-brasileiro.htmSaudações Literárias!
sábado, 10 de abril de 2010
DENOTAÇÃO E CONOTAÇÃO
Caros amigos,
Para compreender bem a linguagem literária, um passeio pelos fundamentos teóricos ajuda bastante, uma vez que amplia o nosso olhar sobre as diversas dimensões da leitura e da escrita.
De maneira prática, vejamos as diferenças entre linguagem denotativa e conotativa.
A denotação encerra todos os conceitos, os objetos aos quais os conceitos são atribuídos. Já a conotação é a vastidão de sentidos empregados nestes objetos, partindo da compreensão do sujeito, do contexto e do campo semântico que o idioma culturalmente e historicamente possibilita.
Lembremos da imortal Capitu, personagem de Dom Casmurro, obra de Machado de Assis, publicada em 1900, embora a data da edição seja de 1899.
Para Bentinho, Capitu tinha "olhos de ressaca". O que seriam esses "olhos de ressaca"? Se pensarmos na palavra ressaca, como uma gíria do nosso tempo e da nossa região, logo concluiremos grosseiramente: Capitu tinha olhar de uma mulher bêbada. Contudo, se debruçarmos a atenção para o contexto do sudeste brasileiro em fim do século XIX e início do XX, esta nossa conclusão cairá por terra.
E estendendo a leitura da obra um pouco mais, verificamos: "Traziam não sei que fluido misterioso e energético, uma força que arrastava para dentro, com a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca."
Então, todos os sentidos de um mar em ressaca, tempestivo, revolto, são atribuídos ao olhar de Capitu. Uma linda metáfora que tem a sua glória ao se dizer “...uma força que arrastava para dentro...”.
Sentimos como o Bentinho era sacudido por aquele olhar, como ficava fascinado, atado e impotente diante o magnetismo e a beleza daquele olhar que o tragava para a alma de Capitu ao mesmo tempo em que sentia a sua própria alma a tragando para si.
Vejam quantos sentidos, quantas sensações, quanta conotação é possível construir ao se dizer apenas: “olhos de ressaca”. Percebam o quão fantástico é o simples aprendizado de distinguir denotação e conotação! A nossa percepção se alarga nos horizontes da leitura e a nossa escrita consegue desbravar “mares nunca dantes navegados” do nosso idioma.
Para compreender melhor as diferenças, vejamos:
DENOTAÇÃO
- Sentido restrito;
- Foco no objeto;
- Predominância na linguagem objetiva;
- Uso da 3ª pessoa do singular ou plural;
- Uma interpretação;
- Significados “do dicionário”, original;
- Não depende do contexto;
- Impessoalismo.
CONOTAÇÃO
- Sentido amplo;
- Foco no sujeito;
- Predominância na linguagem subjetiva;
- Uso da 1ª pessoa do singular ou plural;
- Possibilidade de diversas interpretações;
- Sentidos figurados – uso de figuras de linguagem;
- Depende do contexto;
- Pessoalismo.
Vejamos a tirinha a seguir:
Como podemos perceber, em cada quadrinho, a palavra "siga" tem um sentido diferente, o que torna-se evidente com as imagens bem humoradas. O que possibilita essa diversidade de sentido? O próprio uso denotativo e conotativo da nossa linguagem.
Agora, aproveitem este aprendizado e apliquem na leitura e na construção das suas diversas ecritas.
Saudações Literárias
Obras e filmes para o Vestibular UFBA 2011
UFBA
Universidade Federal da Bahia
1ª fase
♦ As vítimas algozes - Joaquim Manuel de Macedo
♦ A correspondência de Fradique Mendes - Eça de Queirós
♦ Vidas Secas - Graciliano Ramos
♦ Quarup - Antônio Callado
♦ Os melhores poemas (antologia publicada pelo Fundo Nacional de Cultura/ MinC) - Cadernos Negros
♦ Senhora - José de Alencar
2ª fase
♦ As vítimas algozes - Joaquim Manuel de Macedo
♦ A correspondência de Fradique Mendes - Eça de Queirós
♦ Vidas Secas - Graciliano Ramos
♦ O largo da Palma - Adonias Filho
♦ Quarup - Antônio Callado
♦ Senhora - José de Alencar
♦ Macunaíma - Mário de Andrade
♦ Os melhores poemas (antologia publicada pelo Fundo Nacional de Cultura/ MinC) - Cadernos Negros
♦ O último vôo do flamingo - Mia Couto
♦ Os cem melhores poemas brasileiros do século - Italo Moriconi (org)
Filmes:
♦ A invenção do Brasil - Guel Arraes
♦ Cidade de Deus - Fernando Meireles
♦ Deus e o diabo na terra do sol - Glauber Rocha
♦ O baile perfumado - Lírio Ferreira e Paulo Caldas
♦ Diários de motocicleta - Walter Salles Jr.
♦ O homem que copiava - Jorge Furtado
♦ O que é isto, companheiro? - Bruno Barreto
♦ Adeus, Lenin - Wolfganger Becker
♦ Faça a coisa certa - Spike Lee
♦ O crime do padre Amaro - Carlos Carrera
Fonte: http://www.vestibular.brasilescola.com/blog/obras-literarias-para-2011.htm
Universidade Federal da Bahia
1ª fase
♦ As vítimas algozes - Joaquim Manuel de Macedo
♦ A correspondência de Fradique Mendes - Eça de Queirós
♦ Vidas Secas - Graciliano Ramos
♦ Quarup - Antônio Callado
♦ Os melhores poemas (antologia publicada pelo Fundo Nacional de Cultura/ MinC) - Cadernos Negros
♦ Senhora - José de Alencar
2ª fase
♦ As vítimas algozes - Joaquim Manuel de Macedo
♦ A correspondência de Fradique Mendes - Eça de Queirós
♦ Vidas Secas - Graciliano Ramos
♦ O largo da Palma - Adonias Filho
♦ Quarup - Antônio Callado
♦ Senhora - José de Alencar
♦ Macunaíma - Mário de Andrade
♦ Os melhores poemas (antologia publicada pelo Fundo Nacional de Cultura/ MinC) - Cadernos Negros
♦ O último vôo do flamingo - Mia Couto
♦ Os cem melhores poemas brasileiros do século - Italo Moriconi (org)
Filmes:
♦ A invenção do Brasil - Guel Arraes
♦ Cidade de Deus - Fernando Meireles
♦ Deus e o diabo na terra do sol - Glauber Rocha
♦ O baile perfumado - Lírio Ferreira e Paulo Caldas
♦ Diários de motocicleta - Walter Salles Jr.
♦ O homem que copiava - Jorge Furtado
♦ O que é isto, companheiro? - Bruno Barreto
♦ Adeus, Lenin - Wolfganger Becker
♦ Faça a coisa certa - Spike Lee
♦ O crime do padre Amaro - Carlos Carrera
Fonte: http://www.vestibular.brasilescola.com/blog/obras-literarias-para-2011.htm
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