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sábado, 11 de abril de 2009

Leitura - Bagagem- Adélia Prado


(imagem: Colheita de Maçãs, 1890 - Carl Larsson)

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Neste poema, Adélia mistura saudade, tristeza e alegria, ao conectar passado e presente em suas memórias de família. O ser e estar no mundo conotam sensações, sabores, ações, olhares e toques que celebram a vida. A tristeza pelos tempos ídos é amortecida pela certeza de que tudo permanece e nada morre; de que a vida se recria e reinventa a cada ciclo que se encerra.

Sobre Bagagem - Adélia Prado


LITERATURA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA
TEMAS: COTIDIANO / RELIGIOSIDADE / LEMBRANÇAS DO PASSADO / NATUREZA / AMOR
LIVRO DE POESIA – DIVIDIDO EM CINCO PARTES:
O MODO POÉTICO: Com Licença Poética / Poema com absorvência no totalmente perplexas de Guimarães Rosa) / Agora, ó José /
Leitura / No meio da noite / um salmo / Impressionista / (entre outros)
UM JEITO E AMOR: O sempre amor / A serenata / Um jeito / (entre outros)
A SARÇA ARDENTE- I:Janela / Epifania /Ensinamento / Chorinho Doce / (entre outros)
A SARÇA ARDENTE – II: Insônia / Fé / O retrato / O sonho / As mortes sucessivas / (entre outros)
ALFÂNDEGA: ( com um único poema – de mesmo nome) Alfândega

Adéia Prado - Bagagem

Mais um pouquinho de Bagagem:

Antes do nome

"Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe;
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é o Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror. "

Este poema transcende a função metalinguística e para atingir o modo religioso, sagrado de se construir ideias, fazer poesia com toda sacralidade que está impregnada na própria vida de Adélia. Está contido na parte O MODO POÉTICO) da obra Bagagem.

Veja a seguir o que encontrei sobre a obra, em
http://www.releituras.com/aprado_bio.asp


"Em 1975, Drummond sugere a Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago, que publique o livro de Adélia, cujos poemas lhe pareciam "fenomenais". O poeta envia os originais ao editor daquele que viria a ser Bagagem. No dia 09 de outubro, Drummond publica uma crônica no Jornal do Brasil chamando a atenção para o trabalho ainda inédito da escritora.

'Bagagem, meu primeiro livro, foi feito num entusiasmo de fundação e descoberta nesta felicidade. Emoções para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento. Descobri ainda que a experiência poética é sempre religiosa, quer nasça do impacto da leitura de um texto sagrado, de um olhar amoroso sobre você, ou de observar formigas trabalhando.'

O livro é lançado no Rio, em 1976, com a presença de Antônio Houaiss, Raquel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Juscelino Kubitscheck, Affonso Romano de Sant'Anna, Nélida Piñon e Alphonsus de Guimaraens Filho, entre outros."

Até a próxima postagem.

BAGAGEM - ADÉLIA PRADO

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Este poema faz parte da primeira obra publicada por Adélia Prado: Bagagem: um livro de poeisas que traz referência à sua vida, às suas memórias e reflete a sua forma ver a vida, o mundo, a condição da mulher e do homem no mundo.
Faz uma intertextualidade com o Poema de sete faces (CDA ).
Veja este poema e faça as suas comparações:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Observe:
O homem, por estar numa posição cômoda de privilégios sociais, não precisa lutar para modificar-se (desdobrar-se), para impor-se. A mulher, sim, precisa e desdobra-se. É desta maneira que vem construindo um destino feliz e inteligiente.
Para o homem (Carlos Drumond de Andrade) - anjo torto: destino limitado e inexorável.
Para a mulher (Adélia Prado) - anjo esbelto: destino amplo, mutável e belo.